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Desígnio > Metodologia
24 de Junho de 2005

A Digitalidade
por José Fernando Pinto
Comentários (3)

 

Reflexão construída sobre os textos “From static plastic to dynamic fluid” e “Random
or sketchy?” de Mike McCoy

Introdução
As novas tecnologias, as novas tecnologias… o novo mundo, a realidade virtual… e as pessoas que se contaminam deste novo mundo, mas que não se conseguem subtrair, pois claro, da sua filogenia. Está disponível uma nova forma de existência. No processo “natural” de evolução não se vislumbram alternativas. Não é possível evitarmos a digitalidade ou, se preferirem, a idade do digital. Esta nova dimensão promove a multiplicidade de contextos que suporta uma parte cada vez mais relevante da existência dos indivíduos. Os exemplos são óbvios: a WEB, as novas formas de (tele)comunicar, as novas ferramentas… Se atentarmos, por exemplo, nos acontecimentos registados a uma pessoa e dia normais, verificamos que quase todas as situações e tarefas estão embriagadas de processos associados à digitalidade. A globalização é o resultado mais imediato. Enquadrando esta actualidade no “design” podemos discursar algumas cogitações.


Digitalidade, corpo e emoções
Efectivamente assumimo-nos parte integrante da digitalidade; reclamamos até a existência em “meio digital”. Aí, sem qualquer pudor, mergulhamos também o corpo disponibilizando-o ao meio. Não o fazemos de ânimo leve; fazemo-lo porque não nos conseguimos despojar dele. Será o corpo o parente pobre do ser? É de certeza o mediador…


Não tendo o corpo evoluído neste meio e evoluindo o meio a velocidades que jamais permitirão ao corpo adaptabilidade “natural”, há que conquistar o conforto essencial para que a co-existência de ambos e as suas múltiplas relações subsistam. Esta conquista revela-se não só no corpo mas através dele (não fosse ele o mediador, a última interface). Uma das variáveis da equação que veicula esta aquisição de conforto é, sem dúvida, a dimensão emocional dos objectos. O que M. McCoy sugere é precisamente isso. Num estado em que o meio se define demasiado racional, frio; em que o ser é impregnado de desconfianças, a proposta é a de aumentarmos o carácter emocional dos nossos projectos. Mais do que uma possibilidade será uma necessidade potenciarmos as relações emocionais entre o ser e o objecto. Depois do domínio mecânico e técnico, lançamo-nos na conquista do emotivo. Apostamos em projectar possíveis soluções às necessidades ou exigências emocionais dos utilizadores considerados.


Concluindo (sem no entanto encerrar)
Uma estratégia possível é o aperfeiçoamento das interfaces. Tentar encurtar as distâncias, físicas e emocionais, entre objecto e ser. Neste caso, parece-me inevitável, atractivo até, intervir no corpo; potenciá-lo enquanto médium da relação, metamorfoseá-lo, explorá-lo… Intervindo no corpo minimizamos a necessidade de intervir nos objectos ou pelo menos, de repetir essa intervenção noutros objectos. Pese embora a dificuldade, explicável, de transbordarmos os limites do nosso corpo (do corpo biológico e emocional). Será imperativo algures durante este processo (deverá ser já) reclamar, reivindicar capacidades críticas e cognitivas do ser. É essencial que o projecto cumpra com estas necessidades, assim como através delas proceda à educação social dos públicos, exaltando a responsabilidade intrínseca do designer.


De qualquer forma, este percurso, embora iniciado, está longe ser percorrido. As ferramentas digitais ainda não substituíram as tradicionais. Para quando a excomungação dos lápis e do papel? Ainda assim, se um dia isso suceder (um dia sucederá!), será bom percebermos que nada se perdeu. Simplesmente evoluiremos a ferramenta. Mau seria perdermos o verbo ou delegá-lo…

 

Referências
From static plastic to dynamic fluid, Mike McCoy.
Random or sketchy?, Mike McCoy.

 

 


(Este artigo foi desenvolvido no âmbito da disciplina de História das Artes e do Design 2, na ESAD - Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos.)

José Fernando Pinto

 

29 de Junho de 2005 > Comentários

Boa Noite,

gostaria de expressar a minha opinião, em jeito de resposta ao texto ‘A Digitalidade’ de José Fernando Pinto.

Concordo com alguns pontos que refere no seu texto, nomeadamente quando se dirige ao digital como realidade inevitável. É algo implementado e cada vez mais desenvolvido e em constante evolução. É necessário, como diz e bem, a meu ver, apostarmos na busca do lado emotivo.

Pretende, contudo, fazer esta busca do lado emotivo pelo digital? Negando o lápis e o papel? Preferindo a ferramenta computador? Prefere substituir a simplicidade de uma folha em branco e um lápis na mão pela complexidade de um teclado e de software cheio de opções? Isto para chegar ao lado emotivo? Este não se quer pessoal? Está perante uma ferramenta que gera padrões e objectos universalmente iguais, é uma ferramenta fria, sem emoções. Como conseguir atingir esse lado através do digital? Onde não há um contacto directo, um contacto, algo físico, de onde provem muitas vezes a emoção que procura.

Contesto a excomunhão do lápis e do papel que defende, mas, contudo, não sou opositor das tecnologias, apenas considero que estas nem sempre são necessárias, e no Design, onde devemos partir sempre de uma necessidade, devemos utilizá-las sim, mas não desprovidos de critérios de escolha e sem um desenho, um esquema, um texto escrito à mão a sustentar o nosso pensamento, o nosso objecto. Não considero evolução à negação dos meios tradicionais.

Nuno Pacheco
(Responder)

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03 de Julho de 2005 > Comentários

Caro Nuno

Tive oportunidade na conferência “Design na era Digital”, de abordar a ideia que sempre que novas tecnologias invadem o mundo do Design (e não só), existe sempre uma dualidade de reacções: uma que tende a ser conservadora e outra que tende a ser idealista. Mas é na opção racional das tecnologias que uma escolha tem de ser feita.

As novas tecnologias não respondem a todos os problemas do Homem, mas são sérios avanços para esse fim. Agora, não podemos pensar que elas existem unicamente para nos melhorar. Nós, seres humanos, temos uma certa mania de enviesar tecnologias que foram feitas para um determinado propósito, levando-as para fins macabros. Veja-se o Nobel e a dinamite.

É verdade também que nós nunca “des-inventámos” nenhuma tecnologia, portanto o lápis estará sempre connosco.

Espero ter a oportunidade de confrontar estas ideias num ensaio, para depois ser-se criticado pela comunidade.

Abraço

Luís Inácio

(Responder)

 

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07 de Julho de 2005 > Comentários

Viva Nuno!

Antes de mais, permita-me agraciá-lo por ter comentado o texto. Foi um enorme elogio para mim!

Quanto às questões que coloca, tentarei esclarece-las da forma mais clara possível. Assim sendo, permita-me distinguir aqui, ao nível do projecto, duas etapas essenciais: a da elaboração do projecto propriamente dito (constituído por todas as operações que o designer queira considerar em termos metodológicos) e a da sua execução, situada a jusante da primeira. Parece-me que neste caso, e para o debate, a execução não é relevante. Centremo-nos portanto na elaboração. É nesta etapa que o designer define e organiza as metas que pretende atingir, incluindo as emotivas. As linguagens utilizadas nesta etapa podem ser exclusivamente digitais. Como em muitas outras actividades intelectuais, também no design o lápis será substituído. Não acredito que os conceitos intrínsecos do acto de "riscar" desapareçam; o que acredito é que esses conceitos passarão a ser "codificados" em linguagens digitais. A música que hoje se produz recorrendo exclusivamente a linguagens digitais é menos emotiva que as que se constroem analogicamente? Será, eventualmente menos erudita? Quando o poeta abandonou o lápis e o papel e passou a usar as máquinas de escrever e mais tarde os processadores de texto, a poesia tornou-se fria? A fotografia sendo digital, é estética ou formalmente menos válida? Relevante para o fotógrafo é o acto de fotografar e tudo o que lhe é intrínseco, como para o poeta é o acto de escrever, para o músico o acto de compor (mesmo que isso se inicie com o bater dos dedos numa mesa!) e para o designer o acto de projectar. O que acontece é que estes registos são cada vez mais, e por conseguinte um dia totalmente, registados recorrendo a linguagens digitais. "Vivemos um momento em que a digitalização traduz já todos os fenómenos (incluindo a sensorialidade humana)" [1].

A contestação do Nuno justifica plenamente o parágrafo do texto em que digo que não conseguimos evoluir à mesma velocidade das ferramentas digitais. Além disso somos naturalmente cépticos a mudanças e ao conceito de novo quando este se encontra aliado ao de desconhecido. Presumivelmente, a linguagem digital ainda não evolui o suficiente para que a aceitemos sem receios… Provavelmente, esse instante está mais próximo do que podemos supor. Os designers devem aproveitar todas as novas oportunidades potenciadas por esta linguagem (nas formas, nos materiais, nas ferramentas, nos conceitos, nos argumentos, nos cenários, nos contextos, etc.). E isto não significa que se esqueçam ou que não se utilizem outras.

Quanto ao carácter determinista do digital e, deixe-me citá-lo: "uma ferramenta que gera padrões e objectos universalmente iguais, é uma ferramenta fria, sem emoções."; existem há algum tempo e com avanços significativos, investigação e implementação de algoritmos evolutivos (ou genéticos) e algoritmos colectivos. A área da computação evolucionária imita os mecanismos fundamentais da evolução: a selecção dos mais aptos; a reprodução que assegura a herança e a respectiva alteração do material genético dos progenitores. Por outras palavras, transforma em algoritmos a teoria de Darwin. Confira por favor Penousal Machado da Universidade de Coimbra e Juan Romero da Universidade da Corunha, Espanha e o seu NEvAr - uma ferramenta de arte evolucionária, ou, se preferir o texto CREATIVE ARTIFICIAL ARTISTS da autoria dos citados na revista NADA, n.º 4, 2005. Outra área que elimina o carácter determinista inerente à génese do digital é a área da inteligência colectiva ou inteligência enxame. Confira por favor os investigadores André Lemos ou Marco Dorigo, este último da Universidade Livre de Bruxelas e os seus contributos para esta área.

Parece-me relevante, não a linguagem, mas a metodologia. É relevante que eu pense e que de preferência, pense bem! No contexto contemporâneo o digital assume supremacia sobre outras linguagens. Contudo, os processos, as metodologias e as linguagens tradicionais continuarão presentes e sempre constituirão fonte de riqueza e inspiração para as dinâmicas projectuais, independentemente das metodologias.

Espero ter contribuído eficazmente para o debate. Obrigado mais uma vez pela consideração no comentário.

[1] Furtado, Gonçalo, Notas sobre O Espaço da Técnica Digital, 2000, página 10

 

José Pinto

(Responder)

 
     
 

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