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Desígnio > Ética
11 de Maio de 2005

Factores Sociais, Ambientais e Éticos: As Suas Implicações Para a Teoria do Design por Terence Love

Este ensaio está preocupado com as matérias sociais, ambientais e éticas, e de como é que elas são incorporadas dentro da teoria do design. As maneiras com que os factores de design sociais, ambientais e éticos, necessitam, para serem construídos de uma forma teórica abstracta, são assuntos de discussão. É defendido que a inclusão geral de factores sociais, ambientais e éticos dentro do design teórico, necessitam de um foco central no "design como actividade humana" para ambos, a teoria do design e design de pesquisa.

Introdução
Este é um relatório sobre a minha pesquisa para doutoramento na Universidade de Western na Austrália. Dois contributos para o conhecimento foram desenvolvidos nesta pesquisa.

• Um novo paradigma de teoria do design de engenharia, que inclua valores humanos acompanhando as existentes teorias funcionais, de artefactos e informáticas, do design.

• Uma análise critica à teoria existente do design de engenharia, através de uma perspectiva meta-teórica.

Estas foram as consequências sobre a tentativa de incluir factores sociais, ambientais e éticos de uma maneira mais satisfatória numa teoria do design de engenharia.

O plano original era simples, primeiro identificar as características teóricas dos factores sociais, ambientais e éticos, e segundo, identificar quais as teorias do design de engenharia, que as poderiam incluir. Tornou-se claro contudo, que existem problemas fundamentais nestas teorias do design de engenharia, e que muitas delas têm posições relativamente à área de interesse. Durante a pesquisa algumas destas dificuldades teóricas foram encaminhadas, e as suas resoluções tornaram-se significantes como resolução do problema central da pesquisa.

A pesquisa baseou-se na premissa de que os factores sociais, ambientais e éticos não foram satisfatoriamente incluídos nas teorias do design de engenharia. A pesquisa preliminar apontou para a necessidade de uma nova teoria, levando a duas hipóteses de pesquisa. Essas são:

1. de que os paradigmas existentes do design de engenharia teórico, não fornecem bases adequadas para a inclusão dos factores sociais, ambientais e teóricos, assim como de valores humanos;

2. a inclusão de factores sociais, ambientais e éticos, assim como os valores humanos, na teoria do design de engenharia podem ser alcançados através de:

a – uma base epistemológica apropriada para uma construção teórica, sobre design de engenharia;

b - desenvolver definições de "design" e " processo de design" baseado nessas perspectiva epistemológica;

c - desenvolver novas estruturas taxionómicas para as disciplinas de Design de Engenharia e Pesquisa em Design de Engenharia;

O problema
Superficialmente, o problema centrou-se nas consequências sociais e ambientais adversas do uso da tecnologia, e das dificuldades éticas inerentes. A teoria do design de engenharia é indiciada nestes problemas, porque é a teoria que influencia a educação dos designers, e porque a tecnologia depende do design para a sua existência.

Existe uma considerável amplitude literária sobre o design de engenharia e o design teórico, mas essa literatura representa uma diversidade de opiniões, em vez do desenvolvimento de um acordo teórico. Na literatura relacionada com matemática, engenharia ou princípios científicos sobre a tecnologia, especificações ou definições de artefactos, apresentaram-se poucos problemas. As maiores dificuldades encontraram-se na área do desenvolvimento teórico sobre o projectar. Terminologicamente, semanticamente, conceptualmente e teoricamente existem problemas com confusões, fusões, sobre-generalizações e sub-justificações na formulação teórica sobre a actividade de projectar artefactos de design de engenharia. Estes problemas têm sido visíveis desde os anos 60 (Lewis 1963; O'Doherty, 1963; Slann, 1963; Eder, 1981; Talukdar, Rehg & Elfes, 1988; Dixon 1989; Pugh, 1990; Ullman, 1992; Hollins, 1994; Reich, 1994). A escolha de paradigmas de pesquisa e desequilíbrio nos programas de pesquisa, têm sido sugeridos como razões para este estado de coisas ( Gregory, 1981; Hollins, 1994; Reich, 1994).

Estrutura teórica e método de pesquisa
Os factores sociais, ambientais e éticos foram o foco do método de pesquisa. A sociedade vê as consequências da tecnologia. Contudo, os designers funcionam cognitivamente, e perceberam que os actos sociais, ambientais e éticos, funcionavam como consequências para potenciais "futuros" mais ou menos parciais, conjecturando “mundos do design” dentro da mente de designers.

Os valores humanos têm um papel importante nas actividades cognitivas internas do projectar. O positivismo, e a sua ontologia de associação mecânica e determinismo, não proporcionam as bases adequadas de pesquisa para esta área. Para isso uma filosofia pós-positivista foi necessária. A perspectiva teórica usada necessitava da possibilidade de aguentar com tanto a análise das teorias científicas existentes do design, tal como, com a interpretação de valores cognitivos acrescentados nos “mundos dos designers”.

As teorias de Popper ofereceu meios para criar uma ponte entre positivismo / pós-positivismo, e estes foram combinados com a perspectiva construtivista de Guba, que proporcionou ferramentas teóricas de endereçam a interpretação da natureza da cognitção do design - uma combinação semelhante ao "pragmaticismo" que Reich discute (Reich, 1994; Guba, 1990; Popper, 1976). Uma metodologia critica foi usada - como defendido por Franz (1994) e Reich (1994) - acompanhado por técnicas de análise da meta-teoria. Este último foi utilizado para desconstruir as abstracções teóricas e deduzir as suas relações.

Análise
A situação até este ponto; tem havido um conflito entre teorias, modelos e métodos do design de engenharia que são quantitativamente predominantes em natureza e baseadas numa filosofia positivista, e a intrínseca fenomenologia qualitativa das matérias de natureza social, ambiental e éticas, no projectar.

Depois de revista a literatura da língua inglesa do design de engenharia (1962 a 1995) dois pontos tornaram-se claros. Primeiro existem tantas definições de “design” e de “processo do design”, como existem teorias sobre o design; segundo, existe uma forte ligação entre, por um lado, o assunto dominante e a cultura do autor, e por outro, as definições e teorias do próprio autor. A análise critica foi utilizada de modo a identificar as posições filosóficas subjacentes às diferentes definições teóricas do design e do processo do design, e seis diferentes teorias do design de engenharia foram identificadas. Todas as seis se debruçam no positivismo, paradigma científico do pensamento teórico. Nenhuma ofereceu os meios satisfatórios para incorporar factores sociais, ambientais e de éticos.

Um método taxonométrico de análise a abstracções de meta-níveis foi desenvolvido, de modo a ajudar na análise detalhada de termos, conceitos e teorias – assim fornecendo a base para a desconstrução semântica das entidades teóricas em diferentes níveis de abstracção. Existiram dois resultados da utilização do método: primeiro, exteriorizou a importância de uma estrutura disciplinar, em providenciar a suporte semântico contextual para terminologia, conceptualização e análise; segundo, é indicado que as definições de design ou do processo do design revistas, não oferecem uma base epistemológica satisfatória a uma nova teoria.

Assim foi concluído que:

• assuntos sociais, ambientais e éticos, são em natureza, fundamentalmente qualitativos.

• teoria do design de engenharia é confusa, com nenhuma teoria proeminente, ou em primeira análise, que se relacione bem com todos os aspectos do conhecimento humano.

• nenhuma teoria do design de engenharia se dirige competentemente ao facto de que o design é uma actividade humana, que se fundamenta nos valores e suposições humanas.

• estrutura disciplinar é importante para proporcionar um suporte contextualizado de modo a resolver ambiguidades semânticas e conceptuais.

• São necessárias novas definições de "design" e "processo de design" que reflictam epistemologicamente os aspectos humanos de projecto e da cognição do design.

Construir uma nova teoria
A nova teoria do design deverá ter várias outras características além de acomodar factores sociais, ambientais e éticos.

E estes são:

• as necessidades ontológicas e epistemológicas;

• melhora as maneiras com que o design teórico encaixa com o conhecimento de outras disciplinas relacionadas;

• a resolução de muitas das contradições inerentes nas teorias do design existentes;

• providenciar estruturas completas e coerentes para o desenvolvimento da teoria no design;

• Estabelecer fronteiras claras para a disciplina de teoria do design de engenharia.

Estes foram adicionados, a aspectos particulares da nova teoria que foram identificadas anteriormente:

• design é uma actividade realizada por humanos;

• interiormente, os designers funcionavam em termos qualitativos em vez de quantitativos;

• muitas actividades, incluídas anteriormente no "processo de design", são actividades associativas (actividades de suporte necessárias como varrer o chão, mas não essencialmente relevantes) e estas devem ser estudadas separadamente;

• os valores e suposições humanas são o fundamento para a actividade do design e para a consideração de assuntos sociais, ambientais e éticos;

• "sentir" é um dos mecanismos da cognição do design;

• o design é experimental (experimental é aqui usado de modo abrangente, incluindo tanto a experiência cerebral, como a experiência teórica);

• os dados quantitativos usados no design, estão intimamente ligados aos valores e suposições humanos, e isto deve ser reconhecido. Isto é, a nova teoria do design deve reflectir a transferência da dicotomia valor-facto.

A partir destes critérios surgiu a definição de “design” como “a actividade baseada na experimentação intencional”.

A visão tradicional do design de engenharia era uma visão Romântica - o designer como um génio criativo. O design de engenharia sistémico substituiu essa visão com a ideia do design como um processo científico metódico. Esta perspectiva sistemática evoluiu para uma visão do design como "transformador de informação". Combinando com a ideia do design como uma actividade subjectiva interna, com o processo de informação como a actividade objectiva observável externa, sugere a seguinte definição do processo do design.

Processo de design = design + processo de informação + outras actividades

Aplicando os modelos de Popper, dos três “mundos” de objectos, subjectividade e teoria, no design teórico, obtemos na teoria do design a distinção relativamente às actividades subjectivas internas dos designers, e a observação externa dos aspectos do processo de design. Ambos, teoricamente podem ser vistos de três formas diferentes:

• como teoria qua teoria;

• a teoria capaz de dados objectivos;

• a teoria como influencia humana interior;

A confusão entre estes três aspectos teóricos pode ser evitado pelo uso de análises abstractas de meta-niveis.

Muitas das teorias de engenharia (i.e. análise de stress das vigas) oferecem duas posições. Por um lado, é um meio de proporcionar informação - dados que os designers usam enquanto projectam - eles fazem parte de processo de informação exterior. Por outro lado, tais teorias, se analisadas e integradas na essência do designer, contribui directamente para com as capacidades criativas do designer. Isto é, a analise das teorias relevantes proporciona ao designer a habilidade de usar a sensibilidade, para direccionar as actividades cognitivas e conscientes do projectar.

Estes assuntos são relevantes no desenvolvimento de uma estrutura coerente para a disciplina do design - decidindo o que é que pode ser incluído ou excluído do âmbito da teoria do design de engenharia. Um teste simples é tentar decidir se um tópico ou uma actividade particular está mais desenvolvida numa outra disciplina. Quando uma actividade está já bem pesquisada num outro lado, é necessário tentar determinar se essa mesma actividade usada no projecto, é fundamentalmente diferente. Retirando esses elementos de estrutura disciplinar, devolve o foco de volta ao projecto. O que resta é uma disciplina do design no qual o acto humano e as consequências humanas do design são fundamentais.

Sumário
O que pretendo com isto é:

• uma teoria do design, no qual muitas das actividades auxiliares que eram consideradas como fazendo parte do design, sejam recolocadas no seu campo original de estudo;

• uma teoria, cuja base ontológica é o facto de que o design é numa actividade humana intrínseca (como pensar ou sentir);

• a localização da " inteligência no design " em humanos, em vez de num processo externo ou objectos; • uma teoria que é validada como teoria pela sua coerência com outras teorias;

• uma teoria que é baseada na administração interna de informação de natureza qualitativa;

• uma teoria em que é baseada na epistemologia pós-positivista;

• valores, suposições e predisposições humanas intrínsecas e inseparáveis na actividade de projectar;

• uma visão dual do processo do design, como uma actividade interna essencialmente subjectiva, e processo observável, objectivo e externo.

Os ganhos da nova teoria estão em:

• fornecer uma maior coerência de descrição justificativa das actividades do projectar;

• estabelecer bases mais rigorosas para o desenvolvimento de teorias, métodos, técnicas e ajudas no design;

• satisfazer os critérios para o desenvolvimento teórico, retirados dos princípios da Filosofia do Conhecimento;

• incluir conhecimento justificável embebido em anteriores teorias do design de engenharia;

• fornecer bases teóricas para o desenvolvimento de práticas do design, em que assuntos sociais, ambientais e éticos possam ser incluídos nas actividades criativas do próprio design;

O que fica por resolver?
A teoria descrita acima não está completa. O seu desenvolvimento baseia-se em resoluções de inconsistências teóricas incorporadas nas anteriores teorias. Estudos das bases ontológicas e epistemológicas de paradigmas pós-positivistas indicam que métodos hermenêuticos, fenomenológicos ou construtivistas podem eventualmente suplantar o paradigma “popperiano”, que no entanto providencia a linguagem, técnica e conceitos que refutam aspectos da teorias existentes do design da engenharia, permitindo a inclusão de factores previamente excluídos pelo positivismo ou por limitações científicas. Há medida que outros paradigmas pós positivistas se tornam melhor desenvolvidos, é de ter esperança que eles também possam ser aplicados na teoria do design de engenharia, para promover ainda mais as descrições das actividades do projecto de design, e guiando o desenvolvimento de métodos, técnicas e ajudas, mais eficazes para os designers.

 

 

Referencias
•Dixon, J. R. 1989, ‘On a research methodology towards a scientific theory of design’ in Design Theory ‘88, eds. S. L. Newsome, W. R. Spillers & S. Finger, Springer-Verlag, Berlin.
• Eder, W. E. 1966, ‘Definitions and Methodologies’, in The Design Method, ed S. A. Gregory, Butterworths, London, pp. 19–31.
• Eder, W. E. 1981, ‘Report on workshop W3’, in Schriftenreihe WDK 7 Results of ICED 81 (Rome), eds. V. Hubka & W. E. Eder, Heurista, Zurich.
• Franz J. M. 1994, ‘A critical framework for methodological research in architecture’, Design Studies, vol. 15, no. 4, pp. 443–447.
•Gregory, S.A. 1981, Towards a Joystick Model of Possible Actions: A Personal Report on ICED 1981 - Rome, Schriftenreihe WDK 7: Results of International Conference on Engineering Design 1981, eds. V. Hubka & W.E. Eder, Heurista.
•Guba, E. C. 1990, ‘The Alternative Paradigm Dialog’ in The Paradigm Dialog, ed. E.C. Guba, Sage Publications, Inc, California, pp. 17–27.
•Hollins, B. 1994, ‘Conference report: International conference on engineering design (ICED 1993)’, Design Studies, vol. 15, no. 2, pp. 227–229.
•Lewis, B. N. 1963, ‘Communication in Problem Solving Groups’, in Conference on design methods, eds J. C. Jones & D. G. Thornley, Macmillan, New York, pp. 169–184.
•O’Doherty, E. F. 1963, ‘Psychological Aspects of the Creative Act’, in Conference on design methods, eds J. C. Jones & D. G. Thornley, Macmillan, New York, pp. 197–204.
•Popper, K. R. 1976, Unended Quest: an intellectual autobiography, Open Court, La Salle, Ill.
•Pugh, S. 1990, ‘Engineering Design - unscrambling the research issues’, Journal of Engineering Design, vol. 1, no. 1., pp. 65–72.
•Slann, P. A. 1963, ‘Foreword’, in Conference on design methods, London, 1962, eds J. C. Jones & D. G. Thornley, The Macmillan Company, New York, pp. xi,xii.
•Talukdar, S., Rehg, J. & Elfes, A. 1988, ‘Descriptive models for design projects’ in Artificial Intelligence in Engineering Design, ed J. S. Gero, Computational Mechanics Publications Ltd., Avon, UK.
•Ullman, D. G. 1992, ‘A taxonomy for Mechanical Design’, Research in Engineering Design, vol. 3, pp. 179–189.


Terence Love
(Dept. of Mechanical and Materials Engineering
University of Western Australia
tlove@love.com.au
http://www.love.com.au/

Este é um relatório sobre a pesquisa para doutoramento na Universidade de Western na Austrália no ano de 1996.
)

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Tradução de Patrícia Bizarro.
Revisão de Luís Inácio

 
     
 

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