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Desígnio > Ética
27 de Novembro de 2004

Ética e Design?

Este artigo pretende demonstrar as preocupações da integração da ética no design, a partir de uma perspectiva de Design de Comunicação, mas que é abrangente a outras àreas do Design.

Num encontro regional da ICOGRADA em 2002, na cidade de Barcelona, com o Tema “Design Gráfico para Causas Sociais”, à pergunta: “Estarão os designers gráficos a ter um impacto real na área das causas sociais?”, mostraram-se curiosamente duas correntes de pensamento. A primeira linha de pensamento defendia que o design não teria “percepção das verdadeiras causas, do que com o trivial” (Milton Glaser), e que “ muito do trabalho pro bono é feito por razões de auto-promoção estética – quer funcione ou não, nunca é um assunto sério” (Sharon Poggenpohl) [1].

A segunda escola de pensamento entendeu “que o designer gráfico não pode resolver problemas sociais, mas pode contribuir para criar consciência”. Anders Suneson afirmou que o “design gráfico é importante na resolução de problemas e na ajuda das forças do bem a ganhar alguma confiança” para enaltecer os bons exemplos. Stefan Sagmeister defendendo esta posição acrescentou que as “boas coisas são notadas, as más não. Nós temos feito ambas.” [2]

Esta dualidade mostra como os designers ainda estão longe de uma referência comum de valores morais. Isto é indirectamente percepcionado, no tema que deu origem a esta monografia, Ética e Design, onde se dá destaque às duas palavras de modo diferenciado.

Porque é que a oração não foi elaborada com um “do” implicando uma ética nascida no design, ou num “em”, considerando que ela tivesse sido incorporada no design, numa relação simbiótica?

Não foi assim que o tema foi apresentado. As duas palavras apresentam-se em pé de igualdade, reforçado para isso com o conjuntivo coordenado copulativo “e”.

Ora, se estão em pé de igualdade, uma não cede à outra, praticam uma espécie de desconhecimento intrínseco, numa relação desligada. Uma vai beber à outra e vice-versa mas sem nunca se comprometerem. Por isso, não é de admirar que os designers estejam de algum modo alheados à discussão deste tema de uma base teórica, que muitos não dominam e que outros acham demasiado restritivo.

Claro que tem existido tentativas de analisar o assunto, de conjugar as duas disciplinas. Mas nunca passam de meras reflexões, distribuídas de forma incoerente, inconsequente e por vezes ingénua.

Assim um dos objectivos desta monografia é a consequente e inevitável junção destas duas palavras. Ética e Design, aliando a preocupação crescente de, num mundo continuadamente volátil de valores, se possa fazer a procura de «o que se deve fazer? / qual a melhor solução?», concentrando o nosso esforço não na procura de uma moral de estilo deontológico (moral do dever) para a profissão, mas sim das condições para que cada um faça uma escolha ou tente uma resolução/construção dentro dela mesma.

O Valor Moral do Design Gráfico
O design gráfico assumiu desde muito cedo a sua capacidade de medium (meio) na comunicação humana. Estando bem definido nas suas funções tanto pragmáticas, como estéticas e simbólicas, a percepção de uma mensagem por um receptor, através de uma metodologia projectual. O seu objectivo é “a produção de signos” [3].

O Homem consciente deste poder da modelação da comunicação, criou signos que, acompanhados com o zeitgeist, moldaram a história da humanidade. Recorde-se a cruz da Igreja Católica, ou a suástica da Nationalsozialist, e repare-se na carga que estes símbolos tiveram e continuam a ter.

Isto mostra que o design respeita um valor dado pelo Homem. E se respeita um valor de outrem e não um próprio, considera-se que o design é amoral, isto é, não tem valor de Bem, de Mal, de Verdade ou de Justiça intrínseco.

Mas existe a confusão, se calhar já pré-formata num contexto cultural, que o design tem qualidades sociais, enaltecendo qualquer mensagem num acrescento de valor moral por si próprio. Isto não é verdade. O design possui um valor de “bem-feito”(bem-resolvido), como propriedade, isto é, ele assume-se como ferramenta que devido às suas especificações, já enumeradas em cima, optimiza algo resolvendo problemas, encontrando soluções, dando um fim melhor-do-que-era. “O design gráfico é uma linguagem, não a mensagem” diz Tibor Kalman, que ilustra bem a relação de utensílio, de ferramenta.

Podemos com isto traçar um paralelo com a ciência. Também ela não tem nenhum valor moral a priori tendo como função a acumulação de conhecimento mas a utilização do mesmo, depende dos valores do indivíduo que utilizar esse conhecimento.

Necessidade de uma Ética
Esta falta de valores morais intrínsecos no design, paralelamente à democratização da comunicação, despoleta uma reacção de indivíduos, em particular os profissionais, na procura de algo mais do que serem simples telégrafos de mensagens. Daí a sucessão de manifestos (no qual se destaca o manifesto de ICOGRADA), e da necessidade de grandes designers, a escrever e a opinar sobre a moralidade no design, tocando como pontos essenciais a responsabilização do designer. Apercebendo-se do seu papel de co-autor de mensagens onde pode ser louvado pela mensagem, mas também criticado e responsabilizado pela mesma.

Mas será necessário uma ética para o design? O design gráfico, como se provou mais acima, é uma ferramenta neutra em termos morais. Quem injecta os valores são os indivíduos, que trabalham com a ferramenta. São eles os contentores morais, que terão leituras diferentes na escolha das mensagens e sua representação final. Mas quem define os valores morais? Como sabemos que algo é Bom ou Mau? E em situações em que estamos perante uma decisão para a qual não temos regras definidas, nem conhecimentos, como actuaremos?

Não queremos ter todas as respostas, até porque cairíamos no erro de “que existe uma regra absoluta, suficiente para tomar as decisões no nosso lugar” [4]. Esse conhecimento é possível, mas essa felicidade teria como preço a auto-mutilação moral.

A tentativa de resposta advém de uma disciplina chamada ética. O termo – ética (ethiké) - surge pela primeira vez com o historiador Heródoto, depois de estudar várias crenças morais, concluindo “o costume predomina sobre todas as coisas” [5]. A verdade é que para os indivíduos, os recipientes morais foram preenchidos pela moral da religião local, costumes tradicionais, culturais, sociais e até psicológicos.

Mas sendo verdade, que cada pessoa terá um recipiente moral preenchido de maneiras diferentes, como é que se pode conjugar essas perspectivas?

Aqui teremos de perceber agora o conceito de ética à luz do panorama filosófico actual. Se dividirmos a moral e a ética, nas suas maneiras de ser, percebemos que a moral é conseguida a partir da moral vivida, e a ética é percebida como a moral pensada. A ética não cria a moral, reflecte sobre ela procurando justificá-la.

Ela é no fundo a reflexão sobre os nossos actos, costumes, no sentido de confirmar se são ou não os melhores, os mais justos, os mais desejáveis, e deste modo ela frequentemente muda a moral.

A ética no seu discurso não é demonstrativo, mas argumentativo, ela utiliza juízos morais baseando-se em boas razões, e é na discordância de atitudes que se procura atitudes éticas que não são impostas por repressões manifestas ou ocultas, nem sustentadas por um poder, mas quanto muito por uma autoridade, que recomenda apelando ao sentimento de responsabilidade para uma coisa que está para além de.

Fundamentos para uma Ética no Design
Aqui a utilização da palavra “no” na ligação das palavras Ética e Design, não é, como vem sendo demonstrado ao longo do nosso raciocínio, uma escolha inócua. Partindo da reflexão de que os agentes morais são exteriores ao design e integrados nele, também os princípios éticos devem ser introduzidos na disciplina.

Mas como desenvolver fundamentos gerais, de modo a que guiem, de alguma maneira, as reflexões futuras?

A resposta partiu do triângulo equilátero representado a homeodinâmica entre programa/cliente, técnica/expressão, autor/designer, e das funções acima referidas. A esta equação não podemos também deixar de interpretar o zeitgeist, mais localizadamente em Portugal actual e tua a sua realidade.

Com estes elementos podemos distinguir três níveis da actuação da ética no design: a ética micro, macro e molar. No nível micro, as atenções focam-se no designer ao nível pessoal, e aquilo que ele se projecta ao executar a profissão. No nível macro as atenções focam-se para a comunidade de designers e o meio em que ela está inserida. E no nível molar o design e o mundo. A ética molar suporta-se com os níveis macro e micro, tal como a macro engloba a micro-ética, numa analogia de sistema em que uma suporta outra, e onde estão todos interligados, não podendo existir um sem os outros.

A micro-ética é a base fundamental de toda a estrutura ética no design, e que diz respeito à reflexão dos valores individuais e de visão da profissão no dia-a-dia. Neste nível define-se uma orientação moral: a consciência, a responsabilidade e a liberdade.

A liberdade pressupõe escolha autónoma dos actos a seguir, isto é, o poder de se determinar a si mesmo, em plena consciência (que é uma junção do étimo cum, com, e scientia, ciência), o que se entende que o designer tenha o conhecimento de algo, para poder julgar com mais objectividade e após reflexão. Onde adoptará uma posição responsável (que vem do latim respondere, comprometer-se spondere, perante alguém, re) pelos seus actos.

Aqui poder-se-á adoptar o princípio kantiano de entender todo o ser humano como um fim e não como um meio, no processo metodológico da mensagem, o emissor é o nosso fim, não a mensagem.

Também é onde se reflecte sobre a prática do design: Será como um telos (felicidade) em si mesmo, isto é, na prática o fim como a procura final de satisfação moral, ou será a intenção do bem no processo de design, a poder ser mais valorizada?

Na macro-ética as questões põem-se já na convivência entre colegas da mesma profissão, denominadores comuns do design, e a sua influência no meio envolvente. Será que é possível, dentro de um mercado com alguma competição, manter certos princípios éticos? Como diria Brecht, “primeiro a comida e depois a moral”, numa lógica de sobrevivência.

Mas é possível conciliar essa lógica de sobrevivência, além desse economicismo puro, tantas vezes apontado como limitador dos princípios morais, conseguindo influenciar positivamente o meio envolvente e com isso criar novos dinamismos populacionais e acumulação de conhecimento.

Na unidade molar, aliamo-nos a perspectiva global dos pequenos acontecimentos que referíamos nos níveis anterior, a uma escala planetária, com tentativas de chegar mais além com iniciativas em países periféricos, dando atenção ao Eco-Design, a sustentabillidade, etc. Organizando em centros mundiais de modo a, poder resolver questões de uma ética mais global seja discutido participativamente como cidadãos de um mundo cada vez mais globalizado.


Ética no Design
A reflexão, demonstrada aqui, só dá visibilidade a uma pontinha de um grande icebergue de questões morais, seguindo o eixo fundamental criado nesta monografia.

Não era a nossa intenção resolver muitos dos problemas, mas sim ajudar na ferramenta de reflexão, para que o conhecimento do envolvente da ética, faça com que seja possível cada vez mais incorporá-la na ontologia do design.

 

Notas:
[1] ICOGRADA Past features, Cause and effect, Jaques Lounge.
[2] idem.
[3] Herbert W. Kapitzky, La ética y el compromiso en el diseño, Visuelle Gestaltung, 1993.
[4] Enciclopédia Einaudi, Ética, p.311.
[5] A questão da objectividade em ética, James Rachel, Universidade de Alabama, in Crítica.



(Esta monografia foi desenvolvida no âmbito da disciplina de Atelier de Design Gráfico do curso Design de Comunicação da ARCA-EUAC Escola Universitária das Artes de Coimbra, sob a orientação dos professores António Modesto e Arlindo Jorge.)

Luís Inácio

 
     
 

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