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24 de Maio de 2006

A Criança e o Visual
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Sabemos que o estatuto da criança é muito recente e coincide também com a percepção dos abusos perpetrados a elas. Historicamente, a criança tem sido vista como o receptáculo do mal, visto que eram consideradas puras, elas seriam por excelência uns “contentores de veneno” para prevenir que o adulto se sentisse esmagado pelas suas ansiedades provocadas pelo mundo. Aliás, uma pequena comunidade grega defendia que se deveria ter crianças por perto para lhes poder colocar os “maus sentimentos”, principalmente naquilo a que chamavam a “Má Hora”. Pior, se recuarmos na história, para a antiga Cartago, temos registos de pais que sacrificavam as suas próprias crianças em ordem a obter benesses dos deuses para os seus próprios negócios (para mais informação ver aqui). Isto só para citar alguns exemplos.

Na nossa sociedade contemporânea, o ideia(l) de criança passou a ter maior dignificação e cuidado. No entanto, esta revolução de “besta a bestial” em menos de 100 anos, resultou numa sacralização criticável (o comediante George Carlin alerta-nos jocosamente para uma sociedade de consumo e de objectivos de vida demasiadamente infantilocentrados), apenas verificável em algumas classes – tanto económicas como sociais –, e em apenas alguns países.

No entanto, e apesar desta modificação do conceito de criança, a verdade é que a realidade está longe de ser a melhor, principalmente em Portugal, ilustrado, infelizmente, por casos como o da Joana e de Vanessa, entre outros. Sabemos que os meios não são bons, a cultura pior ainda e a educação degradante. No entanto, há quem se detenha a disponibilizar esforços para compreender as crianças, o seu habitat, a sua personalidade e ao mesmo tempo trabalham para melhorar o seu futuro ser, através da educação.

Foi isso que ouvi recentemente no colóquio Protecção vs Prevenção: Do Abuso Sexual e Outros na Infância na FLUC (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra). Neste colóquio foi descrito as dificuldades inerentes ao estatuto da criança (os Convenção dos Direitos da Criança de 1989, UNICEF, até ao percurso histórico do abuso infantil) e reflectiu-se sobre a dicotomia protecção/prevenção, a sua complementaridade, mecanismos, chamadas de atenção e visões para o futuro. Todas as comunicações foram interessantes e ricas, mas, a que mais me impressionou, foi a de Esperança Jales Ribeiro (Escola Superior de Educação de Viseu), Prevenção Do Abuso Na Infância: O Direito a Ser Criança Na Era Pós-Moderna, com o seu relato de projectos que estão em curso com o objectivo de compreender as crianças. Deu a saber que existem instituições que têm como objectivo perceber as crianças, incutindo-lhes, ao mesmo tempo, uma educação futura. E para isso estas instituições montaram projectos no qual as crianças fazem plenários, comunicações e palestras. E como é que a criança faz isto, se ainda nem domina a capacidade verbal? Muito simples, através da linguagem visual gráfica, organizando-a em narrativas. Assim, com temas vários, organizam e apresentam as suas personalidades. Tudo isto se conjuga para o desenvolvimento da ideia verbal, de representação, do fazer e do realizar. Sendo, com isto, possível perceber as complexidades do dia-a-dia da criança, através da linguagem visual, a sua percepção do (seu) mundo e de como ela o compreende, e perceber estados de possível abuso ou negligência, como também da (des)estruturação da sua personalidade.

Esta focalização na linguagem visual gráfica, que a criança rapidamente adquire, é ao mesmo tempo um veículo para a estruturação cognitiva da criança e do nosso conhecimento dela. Quem nunca fez desenhos em que retratava a sua casa com a sua família? A ideia é levar mais longe e aplicar temas e narratividade em contextos variados de modo a perceber os habitats da criança. Para perceber qual o alcance destas experiências, contou-se a história de, num desses projectos, uma criança ter desenhado uma cena familiar, com um estranho ênfase nos órgãos genitais masculinos e cenas dúbias de sexo. De imediato se percebeu que algo de estranho se passava (a ideia de abuso terá passado pela imaginação do leitor); no entanto, o que realmente se descobriu, foi que a criança era exposta a filmes pornográficos por pura negligência do espaço domiciliário.

Embora o caso não tenha, felizmente, sido tão grave ao ponto de um suposto abuso sexual, a verdade é que se percebeu, através da linguagem visual gráfica, um determinado contexto do seu habitat, tal como a estrutura mental da criança, e foi possível determinar acções para uma melhoria de condições.

Uma das objecções que se levantou a este método foi que as crianças mentem. Isto é verdade, mas também é verdade que qualquer pessoa pode mentir, sem com isto dizer que esteja sempre a mentir. O mesmo acontece com as crianças; no entanto, o risco mantêm-se e no seu percurso intelectual do domínio gráfico nas vertentes tanto sintáctica, como semântica e retórica, a necessidade de uma capacidade de leitura crítica e cuidadosa do(s) responsável(eis) é imperativa e baseada em contra-provas.

Concluindo: É com este exemplo, que quis partilhar, que creio ser possível demonstrar a capacidade de a linguagem gráfica e visual não ser um mero divertimento estético para as crianças, e também para adultos, mas uma real aposta de um conhecimento de/para crianças e responsáveis que lidam com o estatuto da criança no dia-a-dia. O seu ênfase deve ser orientado para estimular a sua capacidade cognitiva, como também para a prevenção e protecção de abusos ou outras situações (des)estruturantes.

 

Luís Inácio

 

 

 
     
 

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