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Desígnio
> Editoriais We aren’t secretaries with Corel* Existe uma não-cultura na nossa sociedade que só é ultrapassada pela falta de bons conteúdos e a respectiva divulgação destes. Isto atinge o design de uma ponta à outra (embora não se restrinja a este campo, mas é o que nos interessa neste artigo). O design continua a ter, se não uma concepção errada, nenhuma concepção qualquer, na sociedade portuguesa. Porquê, perguntarão os leitores, desta visão pessimista do estado do design? “Isto não é nada de novo” – reiterarão – “porquê voltar a isto outra vez”? Respondo que sim, “não é nada de novo”, significando com isto que o problema persiste. E persiste porque, quem está bem “estabelecido” não se preocupa com este problema, e quem anda à procura de emprego tem mais em que pensar, do que reflectir sobre estas matérias. No entanto, ultimamente, tenho-me deparado com alguns casos, demais para a minha sensibilidade, de completa desvirtualização do que é ser-se designer, preconizada muitas das vezes pelos empregadores e/ou clientes. Para ilustrar este tipo de casos, vamos imaginar uma situação, baseada em factos retirados de vários casos reais: uma empresa, seja de que finalidade for, contrata um designer, neste caso, um designer gráfico/comunicação. Ao seleccionar um indivíduo, e depois de dar a conhecer o seu local de trabalho, fala-se de expectativas para o futuro. A empresa quer fazer isto e fazer aquilo, melhorar/renovar a sua imagem para ser “dinâmica”, mais “jovem” ou mais ”inovadora”, e tenta demonstrar, com a ajuda do indivíduo designer, como é que ele poderá ser útil naquele contexto. O designer, moralizado, por primeiro, ter um emprego, e segundo, por fazer parte de uma estratégia global da empresa, começa, como é da sua natureza, a elaborar ideias e projectos. Até aqui muito bem. O pior começa a fazer-se notar ao longo do tempo, a partir do momento em que o designer começa a fazer coisas que à primeira vista não estão relacionadas com a sua formação; começa por ver rejeitadas propostas atrás de propostas para a “melhoria/renovação” da imagem da empresa em que está (sendo este, aliás, um dos “objectivos” iniciais da empresa); e onde a única grande remodelação foi a modificação das cartas e elaboração de uns cartões. Isto é: começa a fazer, a pouco e pouco, trabalho de secretária, e sem se dar conta, vê-se envolvido neste tipo de laboração sistemática, transformando-se numa espécie de super-secretária que até trabalha bem em computador, ignorando por completo a sua formação de base, a sua licenciatura. Porque é que isto acontece? Alguns leitores poderão dizer que isto acontece devido à incapacidade do designer de impor a sua visão à empresa. Vejamos os argumentos que utilizam: (1) Um argumento desta visão demonstra que a culpa seria do designer por não explicitar claramente qual o exercício das suas funções; (2) Um outro argumento seria que o designer, numa economia de mercado como a que temos, deve ter a flexibilidade suficiente para poder exercer outras funções quando necessário, por isso, não vê nada de errado neste exemplo; (3) outro argumento, que deriva do primeiro, defende que se o designer não é respeitado, deve decidir-se pela sua demissão dessa empresa e procurar novas oportunidades noutro lado. Neste conjunto de argumentos, em que a culpa obviamente é do designer, descarta-se, curiosamente, a responsabilidade do empregador e/ou cliente. Isto demonstra a existência de uma certa divinização ontológica do cliente, onde a máxima “o cliente tem sempre razão” começa a tomar contornos de abstrusidade. Poderíamos, no entanto, admitir em relação a estes argumentos alguma consistência, mas isso não explicaria tudo. É preciso dois para dançar tango. Nesse sentido, refutaria a esses argumentos da seguinte maneira: Em relação ao argumento (1) temos de entender que o designer pode não conseguir verbalizar as suas competências por várias situações (algumas delas temos tratado aqui nesta publicação); no entanto, o empregador contratou um designer, logo, supõe-se que saiba o que é que um designer faz; mas realmente não é isso que acontece, e quando começa a ver a “inutilidade” – no ponto de vista do empregador – desvia-o para outras funções (partindo do principio que já não seja isso que o empregador tem em mente desde o início). O normal, nestas situações, seria que quando se contrata alguém para um emprego – um profissional que tem uma licenciatura correspondente a esse emprego – é que, pela lógica, faça o seu dever profissional nesse emprego. Aliás, é esse o objectivo do emprego! Emprego, “em+prego”, significa pregar em algo, isto é, demonstrar algo que se adquiriu. No caso do designer, significa por em prática aquilo que lhe foi pregado antes de entrar no mundo do emprego. E aos empregadores, significa demonstrar que entendem esse conceito e aceitam empregar o emprego de um designer. Em relação ao argumento (2): é verdade que devemos ser flexíveis, abrir os nossos horizontes, continuar formação e de vez em quando fazer tarefas que não nos agradam. Isto é uma coisa. Outra, é a subversão daquilo que o designer faz e é capaz de fazer, por uma qualquer outra necessidade da empresa. O estar a tratar de papelada, ou ir fazer recados, ou atender telefones, não se qualificaria como resultado de cinco anos de licenciatura. Finalmente, no argumento (3), a súmula de todos os designers independentes: “se não é do teu jeito, muda”: isto até é prático, no entanto, esquecemos como é que as oportunidades de emprego, nesta situação de má conjuntura económica, estão na realidade. Não é um pensamento que muitos, dependendo de um salário próprio e com certas obrigações na sua vida, tendem a fazer completamente às cegas. Por isso vemos muitos designers sujeitos, e conformados, a este tipo de situações de desvalorização profissional e por consequência desvalorização pessoal. Somos “[s]eres humanos, antes de designers” [1]. E se as empresas não têm capacidade para ter designers a tempo inteiro, então não o façam e procurem ateliers ou profissionais liberais. Mas será que o único sítio onde se pode praticar design é num atelier de design? Não creio. Creio, sim, que os empregadores, e por consequência os clientes, não sabem o que é design, seja de qualquer valência que falemos. Um destes sintomas parece ser a contínua incapacidade de pronunciar a palavra “design”, e por conseguinte, a má compreensão do conceito da palavra, principalmente quando se lhe junta mais qualquer coisa como design “gráfico”, design de “equipamento”, design “industrial" entre outros; então aqui, as pessoas ficam completamente desorientadas. Mas o curioso disto tudo é que estas pessoas conseguem muito bem pronunciar merchandising, franchising, leasing, e claro marketing. Toda esta situação tem também a haver connosco e com a maneira como comunicamos o que é design para a sociedade e também para os designers. Isto porque, mais depressa falamos de designs, de designers – celebridades – que marcam a cultura visual e material, de ateliers que são grandes sucessos capitalistas, das últimas modas, etc., e não falamos do designer “comum”, o “normal”, o quotidiano, que realmente está em contacto directo com a população, com a sociedade onde é constantemente inconpreendido, e que por vezes tem poucos recursos para se defender, de propor novas soluções, e consequentemente de ter empregadores/clientes que possam perceber (já não escrevo compreender) esta profissão. E não creio que a ideia de designer missionário (que consiste no conceito de o designer ser, além de profissional, também pedagogo, na esperança de ir modificando um a um as pessoas que contactam com esse designer, de modo a mudar a sua consciência e compreensão em relação ao design), seja de alguma ajuda possível, pois, se já vimos que o nosso discurso é viciado, ele mais viciado vai ficar quando cada um, subjectivamente, o tentar pedantear. É preciso também discernir que as instituições que promovem o design não explicam o que o design é; apenas mostram algumas vertentes de algumas variantes do Design. E é isso, só, que os não-designers vêem. Post Scriptum: Outra questão, a ter em atenção, é as ofertas de emprego a designers, com a condição de que os candidatos tenham três anos de experiência na área. No entanto, quem pretende candidatar-se a este tipo de empregos é, normalmente, designers recém-licenciados que, como é óbvio, não têm três anos de experiência. Isto é perverso pois, se por um lado a empresa quer ter profissionais a laborar, por outro não quer perder tempo, nem dinheiro, com pessoas recém-licenciadas. Neste sentido, como é que os recém-licenciados têm capacidade de enfrentar este tipo de condições? Há aqueles que defendem que o designer, recém-licenciado ou não, para conseguir experiência deve trabalhar de graça (ou então praticar preços completamente absurdos, desajustados por vezes à sua própria sobrevivência diária). Assim adquiririam a experiência necessária para depois concorrerem a esse tipo de propostas de emprego. Isto é um argumento ignóbil. Uma pessoa que trabalhe de graça está 1º) a desprestigiar-se a si mesma, 2º) a desprestigiar a profissão, 3º) está a retirar trabalho a outros designers e a ateliers (o efeito boomerang) e 4º) está a habituar clientes, a que este tipos de coisas que o “designer faz”, podem ser feitas por um preço cada vez mais baixo, ou mesmo de graça (mais uma vez, influenciando todos os designers e ateliers que depois não conseguem sobreviver e começam também a fazer este tipo de coisas, num círculo vicioso). É preciso começar a olhar para este tipo de situação. Pois, se não tivermos uma atenção cuidada, teremos uma subversão (que já existe) do trabalho do designer. Neste sentido as escolas são muito importantes, pois têm de começar a pensar num “acompanhamento” pós-licenciatura.
Notas: [1] - Manifesto de Design Gráfico: Manifesto Medelin.
Luís Inácio
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