![]() |
|||||
| Colabore•Sobre Nós | |||||
|
|
Desígnio
> Editoriais Epístolas sobre Design (2): Será o design elitista? (Este, e o editorial Epístolas sobre Design (1): Ensino em Portugal, fazem parte de um conjunto de correspondência electrónica entre mim e Ricardo Gaspar, designer de comunicação, na Designare-forum, onde se tocou em alguns assuntos que merecem reflexão. Por isso resolvi colocá-los em dois editoriais correspondendo a dois momentos dessa pequena correspondência. Agradeço ao Ricardo Gaspar pela autorização para a publicação desta correspondência. Como são assuntos em aberto, e algo complexos, está aberto a quem estiver interessado em colaborar.)
Ricardo Gaspar 04 de Maio de 2005 Elite é segundo o dicionário online, sempre dá jeito quando agarrados ao computador, significa: "o que há de melhor numa sociedade ou num grupo; o escol; a flor." Por outro lado, elitismo é definido como: "sistema que favorece um escol, uma elite, com claro prejuízo da maioria." Este tema do design ser elitista, surgiu-me ao ler um artigo da Visão acerca de um filósofo chamado Alain de Botton. Nesta entrevista, surge várias vezes referenciado como sendo um outsider da comunidade de filósofos. Mesmo sendo considerado como um outsider pelos seus pares, Alain de Botton atingiu não o estrelato, sendo que o estrelato em si apenas parece premiar pessoas com nenhuma utilidade para o próximo e para a sociedade local e global, mas é autor de alguns best-sellers relacionados com a Filosofia, sendo exemplo o seu último livro Status Ansiedade. Este Francês, destaca-se de outros filósofos pela sua escrita simples e acessível nos seus pensamentos acerca da sociedade, comparando a sua acessibilidade de leitura ao último livro de José Gil, Portugal, Hoje: O Medo de Existir. A esta abertura ao comum cidadão através da escrita simplificada, reconheço que possa ter sido elitista, pois chegou a uma minoria, a um grupo de pessoas com curiosidade pela filosofia, mas cuja relação com esta, era muitas vezes limitada pelo uso de explicações por vezes etéreas e por um léxico que quase só os próprios escritores apenas entendiam. Favoreceu a elite, aquelas pessoas que queriam aprender e que é realmente "o que há de melhor numa sociedade". Se houve um claro prejuízo da maioria, podemos dizer que sim, pois é a maioria que se recusa a aprender, mesmo tendo os meios à sua disposição. Entendo que o design é uma elite, pois permite o que de melhor existe, resista à maioria. É quase como uma batalha, que nos surge todos os dias, ao tentar convencer a maioria, que o design existe para valorizar o indivíduo e a sociedade. Claro que somos uma elite entre muitas, mas seremos elitistas? Será que o nosso sistema prejudica a maioria? O que fazer se a maioria estiver errada? Como devemos agir? Portugal vive momentos difíceis, como sociedade e como economia. Desta forma acho que a maioria deve aprender com a minoria, e deixar que as elites surjam, pelo menos aquelas que pretendem ajudar o País e o seu povo. Bom design para todos.
Luís Inácio 05 de Maio de 2005 Ricardo Gaspar afirmou: «A esta abertura ao comum cidadão através da escrita simplificada, reconheço que possa ter sido elitista, pois chegou a uma minoria, a um grupo de pessoas com curiosidade pela filosofia, mas cuja relação com esta, era muitas vezes limitada pelo uso de explicações por vezes etéreas e por um léxico que quase só os próprios escritores apenas entendiam. Favoreceu a elite, aquelas pessoas que queriam aprender e que é realmente "o que há de melhor numa sociedade". Se houve um claro prejuízo da maioria, podemos dizer que sim, pois é a maioria que se recusa a aprender, mesmo tendo os meios à sua disposição.» O facto de um determinado artigo/ensaio/design chegar a uma minoria, não o determina como uma coisa má em si. Repare-se que numa discussão técnica existem termos que estão conotados entre os profissionais que as discutem, por exemplo em Design de Comunicação é natural dois profissionais debaterem sobre tipos de letra serifados ou não-serifados, e que tipo é "melhor" visualizado ou não pelo utilizador; ou sobre o respectivo "kerning"; quando o próprio utilizador nem está muito preocupado com isso. O que ele quer é poder ler/entender aquilo que pretende, não lhe interessa se o tipo de letra mais "in" é o xpto e que o xyz está "fora". O mesmo acontece em Filosofia, discussões sobre as modalidades, os universais, ou ser e existência, quando discutidas a níveis técnicos profissionais torna-se confuso, se não, completamente indecifráveis. O que o cidadão pretende saber é muito simplesmente "o que é verdade", "qual o sentido da vida", ou ainda se "existe ou não Deus". Isto acontece porque o cidadão não tem "bases", ou entendimento/preparação para muitos destes temas, e quando o ser humano é confrontado com uma coisa que é complicada à primeira vista, ele desiste de o entender. O que podemos afirmar é que poderemos divulgar estas perspectivas, de maneira a que a pessoa mais comum tenha acesso a este tipo de conhecimento sob formas mais acessíveis, isto é mais simples na sua forma de comunicação. Mas não podemos confundir o "simples" com "simplista". A falácia de assumir o cidadão/utilizador/cliente como néscio, é o maior erro possível. Quanto mais simplista se demonstra algo a ensinar, mais simplista se torna o conhecimento do educando e menos estimulante se torna o conhecimento e mais desinteressado se torna o educando. Isto é sintomático por exemplo, quando os pais balbuciam sons indecifráveis, a tal "fala de bebé", a crianças, dificultando a capacidade de apreenderem e articularem sons correspondentes à língua nativa (ou outras), e pior, adiando o entendimento de proposições essenciais para uso comum do dia-a-dia. Esta não é só a questão epistémica, "como conhecemos o que conhecemos?", mas também "como é que este conhecimento é verdadeiro?", e "em que é que este conhecimento me será útil ou não?". Não defendo uma suposta teoria pragmatista do conhecimento "aprender apenas o que será útil para mim", mas a verdade é que o conhecimento atingiu proporções gigantescas. Sabemos que apenas 0,2 por cento das páginas de Internet é que estão indexadas a motores de busca, e mesmo estas acessíveis ao grande público, são praticamente ininteligíveis a um ser humano visto que 16 por cento estão em inglês e o restante noutros idiomas não facilmente acessíveis. O pior é que dentro destes 0,2 por cento, ainda temos de nos preocupar com aquelas páginas que fornecem pseudo-informação, e com aquelas que contêm informações completamente falsas. E é só uma amostra de todo o conhecimento produzido no mundo. (isto faz-me lembrar o conto de Jorge Luís Borges, "A Biblioteca de Babel") Nota final: na questão do elitismo é preciso entender aquilo que eu chamo elitismo por consequência, por exemplo, grupos de investigação técnicos especializados, grupos com capacidades melhoradas para determinadas funções, isto é, grupos que se preocupam com alguma coisa em particular, para benefício do bem comum, na qual o cidadão comum não precisa de constantemente estar a preocupar-se; outra é o elitismo por opção, isto é, grupos que, quer por status quo, medo, necessidade de poder, desejo de ocultação, etc, criam classes em que supostamente são privilegiados em relação ao cidadão comum. O que os diferencia são opções éticas. No design começa a existir uma tendência para pensar que "somos os escolhidos", isto cria uma vertente egocêntrica no Design criando o tal elitismo por opção. Reflecte-se quando temos cidadãos/utilizadores/clientes, que têm uma imagem mental de que o design faz "coisas que eles não queriam", que são arrogantes, e que são "artistas". Defendo que o Design tem uma palavra a dizer à sociedade, e que pode mudar a sociedade em que se insere (para o bem ou para o mal). Mas também defendo que ainda não sabe bem que palavra é essa, que é suposto ter. Abraço Luís Inácio
|
||||
Editoriais
| Colabore | Sobre
Nós |
|||||