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01 de Novembro de 2005

Pensar (Design e Teoria 3)
Comentários (1)


“O que é o Design?”. Quando me colocam esta questão fico normalmente muito atrapalhado e quase apático. Isto porque não consigo responder de uma maneira simples, clara e inequívoca, tal como responderia se me perguntassem quanto é dois mais dois. Não quero com isto dizer que uma reposta simples, clara e inequívoca não exista. Mas normalmente esse tipo de respostas transformam-se, tornando-se planas, habitando o quotidiano em forma de chavões (soundbytes), como muitas outras, p.ex.: a frase “menos é mais” (less is more) de Ludwig Mies van der Rohe; ou a famosa equação E=mc², que é a expressão final da Teoria da Relatividade Especial de Einstein; que são frases e/ou expressões que toda a gente sabe parafrasear, mas muito poucos são aqueles que sabem realmente o que significa e para que teoria está relacionada.

Assim sendo, o princípio que coloco por detrás de uma pergunta como a colocada, é a suposição de que a pessoa que a colocou queira de facto compreender, entender, e não apenas decorar uma definição “chavónica”, e ir para casa, ou ter com clientes, e regurgitar logo à primeira. Mas para isso é preciso pensar, e nem todos os designers estão inclinados para o fazer. Isto porque ao iniciar esse processo têm de ser críticos e discutir abertamente, e muitos não estão preparados e consequentemente não se sentem à vontade nesse papel (não quero com isto dizer que a maioria dos designers não pensa desta maneira, apenas afirmo que por vezes pensam erradamente, e em direcções infrutíferas). Quando confrontados com esta pergunta, os designers normalmente dividem-se em seis grupos, que correspondem a uma determinada tipologia de respostas:

• Aquele que não quer saber nada da definição de Design, interessa-lhe apenas a técnica de “como é que se faz”, e o resto é “uma seca”. É uma perda de tempo discutir isso (o Pragmático);
• Aquele que pensa que as coisas são o que são, e quem é ele para mudar qualquer coisa nessa matéria. O que quer é “ver coisas” (o Conformado);
• Aquele que tem alguma curiosidade, segue algumas discussões não muito complexas, mas o que gosta mesmo é de ver exposições sobre a sua profissão (o Visual);
• Aquele que pensa que cada um tem a sua definição e que a essa definição pode, e é normalmente, diferente da dos outros. No fundo o Design é sempre subjectivo (o Subjectivista);
• Aquele que defende uma posição dogmática da definição de Design, normalmente uma definição antiquada (o Religioso);
• Aquele que pensa que o Design é algo mais, e as definições actuais são insuficientes. Podem ser insuficientes tanto para ele, para círculos económicos, como para a sociedade, ou para o Mundo (o Inconformado);

Com esta tipologia, e tentando construir uma visão geral, existem mais designers que estão na conjunção destes quatro tipos: Pragmático-Conformado-Visual-Subjectivista, orientados subtilmente por uns quantos Religiosos; do que Inconformados. E mesmo a minoria dos Inconformados, a maior parte deles são tão inconformados, que ficam inconformados com a sua inconformidade conformando-se: convertem-se em Conformados.

Mas se assim é, se não existe apetência da maioria dos designers de levarem a sério estas questões, então porquê reflectir? Porquê reflectir sobre “o que é o Design”? Podem existir três maneiras de responder a esta pergunta. Comecemos pelo princípio: é verdade que muitos designers vão passar a sua vida a fazer design sem nunca quererem definir o que o Design é intrinsecamente. Sentem que é uma perda de tempo, o design é para se fazer e não para se pensar. O pensar não dá dinheiro, não põe pão em cima da mesa, não paga as contas no final do dia – argumentam eles. Mas então como é que definem o que fazem para outras pessoas que não tenham conhecimento desta profissão. Nesta situação os designers definem o que fazem de maneira muito curiosa: definem demonstrando aquilo que conseguem ou que estão habilitados (licenciados) a fazer. Tal como criancinhas, quando lhes perguntamos o que já sabem fazer, e elas começam por dizer que já sabem os números até 10, as vogais a,e,i,o,u, e que já sabem escrever o seu nome; também um Designer de Comunicação, perante a pergunta o que sabe fazer, ou o que faz, demonstra da seguinte maneira: “Ah… posso fazer capas de livros, revistas, cartazes, logótipos, etc”; e um Designer de Equipamento resumiria da seguinte maneira: “Ah, e tal… faço cadeiras, mesas, candeeiros, etc,…”. Isto como é óbvio, é extremamente redutor. Por isso torna-se, em primeiro lugar, necessário responder a essa pergunta para que as pessoas se possam definir como profissionais de maneira exclusivamente pragmática. Para saberem que possibilidades e potencialidades a sua profissão pode realmente ter, e por conseguinte, como é que ela pode contribuir para a sociedade humana. Sem este conhecimento intrínseco, tornam-se facilmente ferramentas nas mãos de outros que apenas têm opiniões (dóxa). É preciso ter em atenção que, para pessoas que não estão seguras naquilo que são, existirão sempre pessoas prontas a dizer-nos no que devemos acreditar, no fundo pessoas que estão dispostas a pensar por nós e a incutir as suas “verdades”, iludindo, enganando ou subvertendo ideias e ideais. A única maneira de combater isto é reflectindo e analisando criticamente o que nos mostram, e o que pensam. É o ir à procura daquilo que nos define. E conseguindo uma definição que corrobore e solidifique o Design numa sociedade, este torna-se compreensível para outros, o que o torna respeitável num mundo económico/político como o nosso;

Em segundo lugar, essa reflexão pode servir como muleta à prática. Reflectir sobre o que é o Design, é também reflectir sobre como o Design, conjuntamente com os designers, influenciam/ajudam/assistem a praxis. Reflectir sobre a melhor maneira de processar teoria, de entender a sua veracidade, de a experimentar colocando-a em prática. Qual o valor do Funcionalismo no Design e a sua aplicação prática? Estará em conformidade com as ideias da Interacção Humana (Human Centred Design)? Onde é que as Emoções entram nesse desenvolvimento? São algumas das múltiplas perguntas que surgem entre a teoria e a prática. Envolvidas numa definição verdadeira do que é o Design, estas teorias serão assimiladas mais facilmente pelos profissionais, assim como também serão melhor entendidas pelas pessoas;

Em último lugar, esta reflexão é necessária apenas porque sim. Para qualquer indivíduo intelectualmente curioso, reconhece como sendo natural e tendo valor em si mesmo a procura de conhecimento. Tal como reflectir sobre o que é a Arte e o seu respectivo valor, ou sobre Política e o seu valor, ou mesmo sobre a Religião e Deus, sobre o sentida da vida, sobre o Universo, entre muitas outras áreas. Este tipo de indagação, que muitas das vezes se move sobre campos especulativos, existem para nos ajudar a compreender o ser humano e o mundo em que ele habita. Neste caso “o que é o Design?” é uma pergunta de interesse epistemológico necessário, andamos todos a exercer determinadas actividades, e nem sequer percebemos o que realmente são nem o seu alcance.

Então se devemos reflectir por todas as razões acima invocadas, porque é que é difícil discutir esta questão? Em resumo pelas razões que já descrevemos no primeiro e segundo parágrafo: a dificuldade de um pensar crítico e racional, e a falta de uma comunidade com esse tipo de dialéctica; mas acima de tudo, devido aos fundamentos, isto é, o ter de mexer em definições que muitos designers já incorporaram em si, e que as utilizam como fundamento para construírem ao seu conhecimento e a sua prática sobre eles. Neste enquadramento torna-se difícil e quase impossível mudá-los. Quer seja por confronto com outras teorias, quer por iniciativa própria e crítica dos seus fundamentos. Um paralelo sobre este tipo de pensamento é por exemplo quando falamos sobre algo que representa uma pedra base no pensamento de uma pessoa (p. ex: discutir a existência de Deus; ou uma ideologia Política; ou uma visão de Vida), e começamos a argumentar racionalmente (repito: argumentação racional e fundamentada) contra esse suposto fundamento, e o nosso interlocutor, apesar de certas evidências, não aceita mudar de opinião, terminando a discussão pelo facto de que toda a base de sua vida, e da sua construção epistémica do mundo, depende dessa pedra basilar. Tirar essa base é perder um sentido construído da sua vida. O mesmo acontece com alguns designers, e a sua visão do Design. Existe um outro problema que inibe uma boa reflexão da pergunta “O que é o Design?”, que é uma visão afunilada do Design, mas a isto trataremos num outro editorial.

Mas, independentemente deste cenário, subscrevo uma atitude positiva. Na verdade o fazer a pergunta já é em si um acto de reflexão. O que demonstra que estamos curiosos e que sabemos que existe material para compreender. O delicioso é não saber onde isso nos leva, mas sabemos que é necessário fazê-lo.

Luís Inácio

 

25 de Novembro de 2005 > Comentários

Pensar (Design e Teoria 3)

«O que é o Design?. Quando me colocam esta questão fico normalmente muito atrapalhado e quase apático. Isto porque não consigo responder de uma maneira simples, clara e inequívoca, tal como responderia se me perguntassem quanto é dois mais dois. Não quero com isto dizer que uma reposta simples, clara e inequívoca não exista. »

Não pretendo dar uma resposta clara e inequívoca ao "O que é o Design?"; mas irei descrever de uma forma bastante suscinta (com todos os riscos que isso representa, e daí não ser fácil responder de forma breve ao que é o Design) o que penso sobre o Design em geral.

Quem me conhece já advinhará com certeza a minha opinião (e calmo desprezo) sobre o, menos é mais (less is more) de Ludwig Mies van der Rohe. Obviamente que se fôr necessário utilizar esses "chavões", prefiro então o "Just enough is more" do Milton Glaser.

Acredito na Metodologia Projectual do Design. Dito isto, acredito também que o Design "não o é" sem a metodologia e o projecto, mas acredito que todas são partes diferentes:

-Método
-Projecto
-Design

Não vou descrever cada uma das partes, como disse iria ser suscinto, e portanto, irei apenas opinar sobre a última.

Design=Forma.

Dito isto, penso que, o Design não é um meio mas sim o Final. Em relação à Forma (Final), o Design trata de lhe dar a importância que ela tem. O puro formalismo dá-lhe em demasia, não tendo sequer em linha de conta um projecto anterior. Por outro lado, em menor grau ou mesmo nulo, não passa de projecto, não chegando ao fim do processo de Design.

Julgo que é ponto de vista que poderá gerar alguma discordância, mas o objectivo principal era mais conseguir transmitir uma explicação/opinião simples e fácil de entender.

Cumprimentos,
Miguel Micaelo
(Responder)

 
     
 

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