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03 de Julho de 2005

Uma nova comunidade


É um facto que todos os designers são opinantes por natureza. Opinam sobre aquilo que são, opinam sobre aquilo que fazem, opinam sobre aquilo que deveriam fazer, e opinam sobre o que outros deveriam fazer para eles. Este opinar não é uma coisa má em si mesmo. Aliás, para quem como os designers intervém directamente no mundo, têm como intrínseco a necessidade de opinar sobre o mesmo. O problema é como é que este opinar é feito. E é feito de maneira avulsa e entrópica, isto é, não se pratica este opinar de maneira sistemática, sendo sempre direccionado a outro designer, que por si só já tem uma opinião, revolvendo neste círculo.

Existe também o problema da maneira como se opina. Como dizia Sócrates, existe a opinião que gera crença e a opinião que gera saber. A que gera crença, normalmente é fundamentada em opiniões subjectivas, submetida ao plano contingente do mundo das sensações; a opinião que gera saber, é baseada no conhecimento de factos submetidos pela razão, onde encontra a realidade inteligível do mundo das ideias. O que a maioria dos designers faz é submeter-se às opiniões subjectivas, entre uns e outros, sem necessariamente quererem chegar a uma conclusão/compromisso daquilo que vão obsessivamente falando, não resolvendo bem as críticas, e não expondo a outros as suas ideias. O designer português de alguma forma tem medo do debate aberto.

Mas isto está em mudança. Uma série de designers portugueses começam a querer opinar, mas não só. Querem debater esse opinar, criticar esse opinar, e abrir esse opinar a quem não é designer, munidos apenas das ferramentas mais democráticas de todas: a escrita e os blogs.

E todos começam da mesma indignação. Começando por afirmar que “algo de errado se passa com a cultura e com a comunicação visual em Portugal”, e que os profissionais “conhecem a situação e não agem”, ou então pior, “desconhecem por completo” esse problema (designerX). Passando pela célebre frase que todos já disseram pelo menos uma vez “Pai, eu sou…um designer gráfico”, e tentar explicar a parentes, amigos, clientes e sociedade o que é. Isto porque “pensam que somos arquitectos”, demonstrando como é que esta situação é realmente “muito frustrante” (acrescento – embaraçante), e duvidando que apenas a “actividade [prática] do designer gráfico pode, por si só, eliminar o problema” (The Ressabiator). Assim impõe-se ao íntimo destes designers “a criação de um espaço (…) de exposição, desenvolvimento e reflexão de ideias, opiniões” (Zarp*), reivindicando “uma discussão séria sobre o design português com o objectivo claro da sua credibilização!”(Enxame).

Este tipo de ferramentas também começa a ser utilizada na pedagogia das escolas de Design, nomeadamente na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa – FBAUL com o blog “Design?”, seguindo já um preceito educacional de Andrea Marks defendido na Voice da AIGA (ver aqui). Assim os alunos poderão começar a pensar verbalmente, o que equivale a abrirem tempo para reflexão. Isto porque, escrever ajuda o pensar.

A única questão que se coloca é, porque é que estes blogs são maioritariamente de designers gráficos/comunicação? É aqui que entra a Desígnio, que é orientada para a discussão do Design em si, do Design teórico, sem se prender nas suas vertentes, mas combinando com elas o mesmo acto de reflexão. A Desígnio é orientada para a pergunta “o que é o Design?”.

Mas isto é uma luta inglória que já fez as suas vítimas , por isso estendo uma pequena ressalva e saudação ao extinto blog SOSD1, que terminou devido ao que de pior estabelece os traços do designer português contemporâneo, fazendo com que o seu medo, inveja e mesquinhez, dilua boas iniciativas. Com estes novos blogs, demonstra-se que existe muito designer que pretende mudar esse estilo fechado, individualista do “orgulhosamente sós” de um grupo (maioritário?) de designers portugueses.

À pergunta do blog 10aine “Há alguém em Portugal que escreva regularmente sobre design gráfico?”, respondo que sim. Mas não só sobre design gráfico, escreve-se também sobre Design.

Uma nova comunidade surge!


 

Luís Inácio

 
     
 

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