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Desígnio
> Editoriais Afinal o mundo é plano! A dialéctica da globalização é extremamente complexa atravessando não só as sociedades culturais como também os indivíduos, e processa-se em duas instâncias: a primeira instância dilui hierarquias; e a segunda instância torna visíveis novas hierarquias. Este percurso de hierarquias acontece em todos os países, no sentido em que todos os países começam a estar aptos para competir. Assim se processa particularmente com os países asiáticos, que assumem esse nivelamento em relação a países desenvolvidos. Com esta fase preparada, passa-se para a segunda que contém a visibilidade de novas hierarquias, demonstrando estes através, nomeadamente, das novas tecnologias, a sua capacidade de intervenção global, de uma maneira que alcança os países mais desenvolvidos de surpresa. Um dos aspectos que contribui para estes nivelamentos, é o recurso das empresas ao outsourcing, mudando as produções de certos componentes para países asiáticos, onde a sua produção é barata, mais rápida e com um bom nível de qualidade, demonstrando a força de trabalho que eles retêm. E não nos deixemos iludir por aquela visão “romântica” do outsourcing, feito e conseguido em condições quase sub-humanas. O outsourcing operado neste momento é feito com a melhor das tecnologias de ponta, com os melhores equipamentos e ainda melhores profissionais. Este aspecto é bem apontado no artigo de “It’s a flat world, afterall” no New York Times, de Thomas L. Friedman (artigo aliás que inspirou o título desta opinião), e a sua metáfora do mundo plano é um bom aviso à navegação de todos os intervenientes nas produções industriais e intelectuais (para perceber melhor a metáfora do mundo plano, ver o artigo exposto na Designare). Esta metáfora deve servir de aviso, principalmente (e de alguma maneira já começa a fazer) ao tecido industrial português. A ideia de fazer objectos, sejam eles qual forem, de uma maneira mecânica e incrementada, deixou de ser uma mais valia para um mundo altamente concorrencial nesse domínio. E a única maneira de conseguirmos evitar a perda de capacidade é prepararmo-nos para o acontecimento da inovação. E como é que conseguimos isso? Através de uma visão geral do que está a acontecer no mundo. O facto, já desenvolvido por muitos, reflectido por outros, é a ideia de mudança. Mudança de uma era para outra, mais precisamente da Era da Informação para a Era Conceptual (como defende Daniel Pink, no seu artigo "Revenge of the Right Brain "). A ideia de obter informação e de saber obtê-la já não é suficiente. Cada vez mais se impõe o problema de “como é que esta informação nos poderá ser útil?”, ou ainda “como poderemos construir algo de significante com/através deste aglomerado de informação?”, substituindo a pergunta convencional “como é que vamos a fazer a mesma coisa de maneira diferente?”. Talvez o “velho mundo” tenha adormecido, e tomado todo o seu método de incrementação de conhecimento e produtos por garantido, a par com a sua tecnologia, e recusou-se a aperceber que afinal países chamados de “menos desenvolvidos” estarão de facto a abraçar melhor, tanto na quantidade como a qualidade, uma variedade de produtos. Isto é particularmente inegável para o tecido industrial português mediaticamente os têxteis, confrontando-se com a capacidade de ter os chineses a fazerem produtos em maior quantidade a menor custo, provavelmente com uma qualidade muito aceitável. É de facto uma concorrência no mercado em ascensão, e a verdade é que os têxteis portugueses não souberam aproveitar oportunidade para inovarem, e por conseguinte, não aprenderam a desenvolver sentido e a melhorar os seus objectos, objectivos e filosofias. Agora estão desesperados com esta concorrência espantosa que chega do asiático. Os têxteis e não só, todas as áreas enfrentam essa concorrência inimaginável, e o que sabem fazer é mais do mesmo. Não existe inovação! Como é que a inovação é possível nas empresas portuguesas? Através do Design. O Design é uma ferramenta capaz de liderar esta transformação. O seu foco na metodologia, criatividade, inovação, pensamento, fazem desta disciplina uma relevância extraordinária, juntamente com a sua visão holística daquilo que pretende transformar, bebendo o conhecimento de muitas outras áreas. Neste sentido o Design tem o poder acutilante de inovar porque é o cerne dele mesmo. Enquanto em outras áreas a inovação "apenas aparece", aqui a inovação é necessária. É de ressalvar que não defendo que o Design possa ser uma panaceia exclusivamente positiva para o mundo. A ferramenta perdida no início dos tempos, que de alguns séculos a esta parte começou a ser cada vez mais notória. Mas que bem utilizada pode ser uma tremenda mais valia, nisso a minha confiança é inabalável.
Luís Inácio |
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