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Desígnio
> Editoriais A moda do Design e o Design da moda Segundo estimativas saem cerca de mil designers licenciados por ano. Esta é uma afirmação que ouço já há cerca de quatro/ cinco anos. Não sei se os dados estão correctos (pelo menos dentro do meu limitado conhecimento), mas se as contas estiverem certas já saíram das universidades mais de cinco mil licenciados em Design nestes estes últimos cinco anos, seja qual for a vertente específica. Se juntarmos a esta conta os mais de dez mil profissionais licenciados ao longo de 28 anos, isto é, desde que apareceu o primeiro curso de design na então Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL) em1975/76 (dados no sítio da Associação Nacional de Designers), então já vamos com cerca de quinze mil licenciados na área do Design. Estes, como todos os números redondos, nunca são de fiar, mas já assustaram os profissionais instalados. A pergunta na cabeça destes profissionais, pedagogos, e opinantes é saber onde se vão escoar tantos licenciados/profissionais? Até porque a “vida está difícil”, e a economia de rastos. Portanto é muito provável que estes mancebos se arrastem num inevitável desemprego. Pior ainda, serão os próximos mil designers que se licenciarão ainda este ano, e mais mil para o ano, et caetera. Como irão estes sobreviver? Como dar volta a esta tendência de maior oferta a pouca procura, e maior competitividade? A resposta destes profissionais, pedagogos, e opinantes, é argumentar que o excesso de alunos, e a sua consequente saída, foram reflexo de modas passageiras. Assim, sem a perspectiva de mais modas e com o consequente e inevitável processo de selecção e avaliação mais rigoroso já não haverá estes números astronómicos e alarmantes nos próximos tempos, por conseguinte, haverá menos profissionais e menos competitividade nesta área. Pois é a minha opinião, ao contrário destes profissionais, pedagogos, e opinantes, de que a moda do “designer” ainda está por vir. O que temos assistido é um país que ainda está em vias de desenvolvimento, e que cuja a consciência do que é o Design ainda não se impôs na ajuda para esse caminho. Assim, neste enquadramento, não existe praticamente procura sistemática de profissionais do Design, nem de estudantes a entrar nestes domínios. Esta moda virá certamente de uma relação de causa-efeito circular: maior desenvolvimento-mais designers e mais designers-maior desenvolvimento. Sendo que nesta maneira, o objectivo de desenvolvimento de um país se centre na vertente económica, cultural e tecnológica. Mas antes de entrarmos nesta fase optimista, temos de nos perguntar de que Design estamos todos a falar. Neste momento o Design é claramente conotado como “moda”. Os estudantes entram em Design com a ideia que esta disciplina é semelhante à pintura à escultura ou à arquitectura, só que com maior probabilidade de sucesso visível e com muito mais estilo. Nos tecidos empresariais, ouve-se mesmo empresários a afirmar que as suas empresas tiveram maior desenvolvimento porque incorporaram, para além de outras coisas, um gabinete de design, que permite efectuar peças “na moda”, porque “é com a moda que as coisas se processam hoje em dia”. Aqui o pensamento torna-se linear: instalou um gabinete de design para estar na moda. Daqui até à conclusão de que o Design é moda, é apenas um passo na mente destes empresários. Mas não fica por aqui. Esta noção transborda para a opinião pública e não é combatida eficazmente pelos profissionais, disseminando-se para possíveis candidatos às escolas de design alimentando um círculo vicioso desta noção. Estes estudantes ( os tais mil todos os anos) saem licenciados continuando com a mesma noção, perpetuam-na com quem falam ou com quem agem (aqui introduz-se o conceito de “estereótipo de um designer”, um tema a que voltaremos em breve). Mas porque é que existe esta noção? Provavelmente porque muitos profissionais não sabem o que é de facto Design, com “D” maiúsculo, ou nunca se disponibilizaram a especular sobre o que de facto é. Serve-lhes saber fazer o que fazem com as suas vertentes formais (mas mesmo aí seríamos capazes de encontrar discrepâncias nas suas definições). Assim, o Design per se nunca é desenvolvido, e amplamente discutido, ao ponto de se poder explicar a qualquer pessoa (leigo, curioso, intelectual, etc.) o que é o Design de uma forma cristalina e racional. Em vez disso recorre-se a métodos que inibem toda essa intenção, por exemplo: organizando encontros de designers para designers, ou operações de charme de design para empresários, mostrando as vantagens de ter uma peça “bonita”, corroborando de alguma maneira com a visão de moda existente na sociedade portuguesa. Isto é mais visível aos olhos da opinião pública quando visionamos grandes manifestações culturais sobre design e vemos tudo, menos a elucidação do mesmo. A minha opinião é contra-natura à opinião instalada dos tais profissionais, pedagogos, e opinantes que defendem que a culpa é da sociedade que não entende o design por mais que o expliquem, e que continuam a insistir em operações de charme, que minam a respeitabilidade do design enquanto disciplina, e minam também a percepção da opinião pública sobre o mesmo. Estes são os mesmos que depois ficam indignados, quando são desrespeitados e são tratados de modo indiferente pelo público em geral, “clientes” em particular. Esta noção de “moda”, afecta-nos em todos os níveis, e de formas particularmente catastróficas. Por exemplo, o novo programa de inovação para as Pequenas e Médias Empresas, o Inov-jovem, que visa “apoiar a integração” “de mil jovens com menos de 35 anos e diplomados nas áreas de gestão, engenharia, ciência e tecnologia”(Público), não menciona o design como alvo estratégico da inovação do nosso país. Isto não pode ser aceitável por nós profissionais, pedagogos e opinantes, a menos que nos revejamos nas mesmas posições que ditam este estado de coisas. O Design não é moda, embora possa designar a moda! É este exercício mental que temos de aprender a fazer e urgentemente, se queremos ser respeitados como disciplina de igual estatuto das Engenharias, Economias, Humanidades e outras. Felizmente tem existido recentemente uma série
de iniciativas, umas mais pessoais, outras mais ou menos institucionais,
de trazer o Design para a rua, e discuti-lo. Talvez isto seja o início
de uma nova era do Design em Portugal.
Luís Inácio |
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