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13 de Fevereiro de 2005

Um ou outro?


Alguns dias atrás, estava a visionar uma entrevista ao filósofo José Gil no programa Livro Aberto, onde estava a apresentar o seu mais recente livro Portugal, Hoje. O Medo de Existir. Já no final da entrevista, Francisco José Viegas pergunta se, e estando nós em época de eleições legislativas, considerava Santana Lopes e José Sócrates “gémeos” na sua maneira de actuar na política. José Gil, embora admitisse uma preocupação mútua na aparência, negou uma comparação semelhante e salientou certas diferenças entre um e outro. Classificou Santana Lopes como exuberante, com um peso nas palavras mesmo quando o que diz é banal aliada à retórica que tanto utiliza, complementando com uma falta de rigor e com muita impulsividade. A classificação de Sócrates incidiu no seu cuidado visual, com uma aparência rigorosa, com uma mente organizada por pontos, rígido e formalista (no sentido de normativo).

Realmente, estas observações servem que nem luvas nos respectivos protagonistas. A verdade é que as aparências têm ditado de sobremaneira estas eleições, e os consequentes ataques ad hominem através da retórica visual, tornam-se quase insuportáveis no ambiente nacional. Mas não é no ponto de vista estritamente comunicativo que queria debruçar uma análise, mas sim na perspectiva do Design no seu sentido basilar.

José Gil na sua análise, exprime um profundo temor orientado a Santana Lopes, devido à sua relação excessiva com a retórica (contando até uma anedota - não querendo comparar as figuras mas sim as ferramentas -, relacionando-o com a retórica de Hitler) complementada com a sua falta de rigor. E a Sócrates mostra uma opinião de alguém com um pensamento linear (por pontos) e não criativo. Aqui é demonstrado uma desconfiança em relação a um e a outro. Uma desconfiança da qual eu também partilho. Mas esta desconfiança não tem nada de extraordinário, até começarmos a pensar que será um deles que irá ocupar o cargo de Primeiro-Ministro.

Atrevo-me a disser que me metem medo. Porque ao ouvi-los falar, pergunto onde está o design disto tudo. Onde está o processo de resolver os problemas. Eles fazem-me lembrar o diálogo escrito por Platão, Górgias, onde Sócrates tenta descobrir a verdade de certos conceitos, nomeadamente do conceito da retórica, através de métodos de refutação, de diálogo. E os seus interlocutores fogem à medida que Sócrates tenta ir mais longe nas suas reflexões, não aceitando o método de procura da resolução desses problemas, e utilizando a retórica como arma para iludir, escapar e de arremesso para ataques pessoais ou para suportar argumentos falsos e não verdadeiros. No fundo não aceitando um método, fugindo assim à resolução do problema. No fundo não querendo fazer design.

Podem dizer-me que não existe só estes dois candidatos, e que se pode olhar para os outros partidos. É verdade. Mas também é inegável que será um destes dois candidatos a chegar ao Governo. E mesmo que centrássemos a atenção nos outros partidos, depois de uma reflexão cuidada, o quadro político não melhora em nada. Aliás eles ajudam sim à sua estagnação.

A verdade é que não há projecto, e não existe nenhuma metodologia para lá chegar. Talvez fosse bom começarmos a pensar em Design Político, e talvez aí as coisas começassem a ser mais orientadas. Já existe a Filosofia Política, a Ciência Política, a Politicologia, as Ideologias, mas falta algo que pegue nisso tudo, e em algo mais, e comece a resolver os problemas com utilidade, criatividade, inovação, organização e estética. Falta Design.

Não é considerar que o Design possa ser a panaceia, mas pode revelar-se como uma ferramenta para tirar o país da situação deprimente em que se encontra. Mas neste momento é no voto que exprimimos a nossa opinião, é o voto que tem de servir de espelho da sociedade portuguesa. O que é necessário, é que o cidadão vote em com-ciência no dia 20 de Fevereiro.

 

Luís Inácio

 
     
 

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