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12 de Janeiro de 2005

Ainda a revista do Orçamento de Estado


Revista do Orçamento de Estado para 2005


Como é de conhecimento público o Governo, em 22 de Dezembro de 2004, decidiu distribuir uma revista sobre o Orçamento de Estado (OE) para 2005, com o objectivo de numa linguagem simples e didáctica, proporcionar informação clara, simples e objectiva dos números e opções do Governo no que diz respeito ao OE.

Compreende-se que o objectivo era o público (do latim publîcu-, «lugar público»), e é de salientar o compromisso de levar as contas públicas ao cidadão, que pretende perceber o que se faz com os dinheiros em Portugal. Isto porque, o cidadão faz parte de uma sociedade, e para exercer o seu pleno direito nessa sociedade, precisa de estar bem informado para o poder fazer. Mas no entanto, o que saiu foi um objecto ambíguo, no qual o Governo gastou cerca de cem mil euros na produção, edição e impressão de trinta páginas em quadricromia. E depois, pago como publicidade, seguiu em apenas três dos cinco jornais generalistas nacionais.

Creio que o Executivo, e por conseguinte a elaboração desta revista, partiu do pressuposto de que o cidadão comum é um coitadinho, que não percebe muito das coisas, e que não tem aliás essa-capacidade-para. Por isso é preciso fazer algo “simplista” de modo a que não o entedie, dificulte ou o obrigue a pensar demasiado. Assim, além de não ser um documento acessível fisicamente a todos os cidadãos, ele está elaborado consoante essas premissas falsas resultando numa revista de aspecto inteiramente gráfico, com imagens que não transparecem a realidade portuguesa, com umas manchas de cor por baixo de cada fotografia que não tem qualquer utilidade pragmática, para além de introduzir um certo estilo mais fashion. Isto é coerente com o conteúdo recheado de frases redondas e evasivas, com muitas declarações de intenções sem as contextualizarem. Além de que, ao elaborarem num suporte de revista algo tão complexo como o OE, cortaram muita informação. Este não é o OE, mas sim algo que o Executivo quis que alguma população visse.

Mas dirão alguns que a revista pretende comunicar optimismo, esperança, orientando o leitor apenas nas linhas mestras do OE para 2005, e que a vontade inicial foi a de explicar didacticamente o orçamento.

É preciso entender que, ao explicar algo contextualiza-se, aplica-se transparência de valores, explica-se outras perspectivas, e não se coaduna com atitudes apáticas. E esta revista, apenas fala em aumentar os investimentos e gastos em áreas de que o português médio está mais sensível (Saúde, Educação, Segurança Social, et caetera), mas não explica onde se corta. Outro exemplo é os pressupostos para OE, que em vez de estarem no início da revista para uma melhor leitura linear, são rematados para a página final sem mais explicações. Isto sem abordarmos a estratégia de divulgação da mesma (aquilo que deveria ser para todos afinal é para alguns).

Sabemos que o OE é obviamente um assunto extremamente complexo, com uma enorme quantidade de informação e de relações. E num objecto destes, e tomando em consideração o programa, a materialização deveria incutir uma apresentação sóbria, demonstrando de uma forma visual/verbal simples e clara os rendimentos e despesas, e como é que elas se relacionam entre si. “Simples, mas não simplista”, como afirma Edward Tufte, demonstrando dessa maneira, padrões e consequências das opções feitas. Mas claro está, que proporcionar uma tarefa como esta, útil e de fácil descodificação ao cidadão comum, exigiria mais do que meramente duas semanas, como foi pelos vistos o prazo para a execução da revista incluindo a impressão. E obteria mais credibilidade se fosse programado por outra instituição mais neutra, do que o Governo/Executivo no poder.

Claro que depois de ver a revista pela primeira vez, tentei dar algum tempo de reflexão, de assimilação do objecto, ganhando perspectiva para uma observação que não se quis a quente. Mas o primeiro pensamento perdurou e cimentou-se num único adjectivo, que trespassava a minha mente: era de que estava perante um “bibelot”. Um bibelot é um objecto que se usa como adorno da casa, uma bugiganga, uma futilidade, e este foi uma futilidade que apenas terá servido para gastar papel (perspectiva ecológica) e dinheiro (perspectiva económica/social) aos contribuintes, sem atingir os objectivos propostos.

Quero salientar aqui o des-vinculamento partidário nesta crítica. Visto que não se trata aqui de se saber se as contas estão certas, ou se as opções económicas serão as mais correctas, mas sim analisar o objecto do ponto de vista de Design de Comunicação, e de como o Design pode ser conotado como futilidade através destas situações, onde o objectivo não é informar mas propagandear.

Um designer, seja de qual especificidade for, não pode trabalhar só com a matéria física, mas necessariamente com o pensamento. Faz parte da sua responsabilidade ética, perceber quando os artefactos são ou não necessários, transportam ou não a sua utilidade. E não apenas ser-se um software/técnico que debita objectos porque é a única maneira de ganhar a sua vida.

Como nota final: Não tenho conhecimento que este objecto tenha sido apontado, discutido ou até criticado pelos Designers de Comunicação de forma direccionada para o público. Se assim for é pena, porque são situações destas que podem ajudar a uma reflexão desta área do Design em Portugal e consequente divulgação da mesma, com linguagem orientada para o público geral.

 

Luís Inácio

 
     
 

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